17th
Receita

Em uma cama
Com nenhuma roupa
Misture nós dois
Em fogo alto.
Sirva-se à vontade.
Orgasmos a gosto.


Em uma cama
Com nenhuma roupa
Misture nós dois
Em fogo alto.
Sirva-se à vontade.
Orgasmos a gosto.
Aqui estou eu, chapado de analgésicos opiácidos e antiinflamatórios com nomes genéricos, tentando encontrar idéias no meio da dor que é menos metafórica do que eu gostaria. Tentando não pensar. Tentando não sentir nada.
E tudo o que resta é medo.

Sim, medo. Não negue. Temos medo porque já vimos acontecer. Mais de uma vez. É o fardo da experiência. É o calo áspero no coração ressecado. Aquele que incomoda. Que não conseguimos esquecer. E que carregamos com um mórbido orgulho.
Criamos anticorpos. Já caímos tantas vezes antes que sabemos reconhecer os sintomas logo no primeiro beijo. Do virar da próxima página iminente. Sabemos onde isso vai dar e como vai acabar.
Sabemos?
Tem certeza?
Maldita seja a incerteza que nos faz apenas fechar os olhos e nos deixarmos levar por essa simples loucura insensata e improvável de te ver sorrindo tão maravilhosamente este meu sorriso.
Apenas meu.
O medo continua.
Mas quem se importa?
Abraço feliz a inconsequente ignorância voluntária.
Por que não?

Olho para a lágrima manchando sua maquiagem e descubro que, diferente da minha habitual prepotência, não sei de nada. Não sei as respostas e tampouco as perguntas. Tento ao máximo me distanciar, seguir em frente, racionalizar, mas não consigo. Pois sei que o tempo é irrefutável e que por mais que eu esteja consciente de nossa efemeridade ainda assim não consigo evitar de torcer pela eternidade. Por enquanto somos apenas brilhos, vislumbres fugidios nessa contramão autoimposta. Mas que não ofuscam. Que são aconchegantes como aquele abraço agora tão distante, com nossos suores como uma fina cola que nos unia mas não nos prendia. Não o suficiente. Não tanto quanto gostaríamos.
Vivo cada dia em função da repetição desse momento. Pela mescla de nossos hálitos ofegantes pelo amor enlouquecido em numa única respiração inebriante. Dois tagarelas finalmente mudos pelo desejo de que aquele momento nunca mais termine.
Sabemos que acontecerá. Não temos resposta alguma, exceto essa. Sabemos que não interessa o quanto nossos mundos são divergentes, sabemos que uma hora ou outra teremos que aceitar a inevitabilidade da união de nossos destinos. Olha pra mim agora. Em meus olhos. Não chora, por favor. Eu te entendo. Eu te aceito como você é. Da mesma maneira que você me aceita. Nosso grande problema não é aceitarmos um ao outro. É aceitarmos a nós mesmos.
Enquanto isso não acontece eu espero, sozinho entre os lençóis frios destes anos ocos. Espero por sua companhia, por seu sorriso de felicidade sem barreiras conscientes ou não. Espero, fiel demais às suas convicções para sair e ir te buscar. Projetando lágrimas que maculam seu rosto imaculável de modo a não assumir as minhas próprias.
Pois essa vida, essa sincronia, essa simbiose ainda é nosso segredo. Só nosso, guardado num canto exageradamente carinhoso em nosso peito. Um canto que não conseguimos ignorar. Apenas aguardando que essa lágrima constante em nossos rostos um dia seque e que possamos gritar a quem quiser ouvir que nosso segredo já não existe mais. Que ele é uma realidade.
A nossa realidade.

Não foi o cabelo grisalho e bagunçado que escorria por sobre seus olhos como a velha cortina de crochê de minha avó. Nem as rugas e tampouco as verrugas. Nem mesmo as roupas puídas e fora de moda. Muito menos pelas manchas em seu jeans ou do barro seco em seus sapatos.
Foi o sorriso. Apenas o sorriso.
Ele morava no prédio? Trabalhava lá? Ou era apenas um visitante? Ninguém sabia. Ninguém perguntava. O que todos sabiam é que em todos os bailes que organizávamos ele estava lá, sentado numa cadeira velha num canto escuro, observando-nos. Mas sempre sorrindo.
Não que nossos pais não estranhassem sua presença. Mas as suspeitas desapareciam com um mero vislumbre daquele sorriso. Ninguém que sorria daquele jeito meio bobo poderia fazer mal a algum de nós. Então ele ficava lá. Alegremente anônimo. Uma testemunha silenciosa do início de nossa puberdade.
Com o hábito ele se tornou parte do cenário. Nem dávamos conta dele, tão entretidos estávamos com nossas paqueras. Júlia gostava do Ricardo, mas fingia que não por causa de Marcos, pois sabia que ele era apaixonado por ela. Ana queria ficar com João, mas depois que beijou o Marcos ele nem dava mais bola pra ela. Érika não queria ficar com ninguém. Nem com o Tadeu, que a rondava como um fantasma a noite toda, para desespero da Ritinha.
E eu?
Eu era feio demais para qualquer menina gostar de mim. Ao menos abertamente. Então eu ficava no som, cuidando das músicas. Rápidas, lentas, dançantes, etc. Sozinho com minha cadeira, minha coca cola e minha caixa de discos, no fundo do salão. De vez em quando eu deixava tudo preparado e tentava me arriscar numa dança ou em outra. Mas eu sempre perdia pra vassoura. Numa dessas vezes pensei ter visto o sorriso do velho mudar de simpático para de zombaria. Só por um instante, rapidamente esquecido pela vergonha da rejeição. E eu voltava ao meu posto. A alma penada da festa.
Mas naquela noite tinha alguma coisa no ar. Um burburinho. Normalmente eu nem ligava, pois qualquer burburinho certamente não era a meu respeito. Nunca tinha beijado ninguém. Era um “virgem de boca”, como teimavam em me lembrar. Mas sabe quando você sente aquela coceirinha na nuca quando sabe que estão falando de você? Pois é. Estavam. Tentei continuar com minha tarefa sem dar atenção. Mas não tinha jeito. Elas estavam lá, cochichando tanto que estavam deixando até os outros garotos inquietos. Quase ninguém dançava. Estava ficando chato. Decidi colocar uma música mais agitada. Para quebrar aquele climão. Não funcionou. Ninguém na pista.
Foi a Lia que chegou perto de mim e me disse para colocar uma balada na próxima música. Eu já estava acostumado com aquilo. Era hora de transformar em ação todas as paqueras e indiretas da semana. Era a hora de formar os casais. Abri um sorriso e disse que tudo bem. Era minha tarefa. Ela saiu dando risadinhas e se juntou ao grupinho do cochicho. Pelo que consegui entender a vítima era a Carol. Só não consegui identificar quem seria seu par. Claro, como poderia? Confesso que fiquei surpreso quando os primeiros acordes da balada começaram e ela foi empurrada pelas amigas em minha direção. Se eu queria dançar? Claro. Nem pensei. Quer dizer, pensei. “É hoje! É hoje!”.
Carol nunca foi um de meus amores platônicos. E olha que eu tinha vários. Baixinha, meio gordinha, cabelos estranhos. E usava aparelho. Todo mundo dizia que era ruim beijar meninas com aparelho. Especialmente quando você também usava um. Mas que escolha eu tinha? Vamos dançar.
Ela se abraçou a mim quieta. Não me olhou nos olhos. Encostou a cabeça em meu ombro e ficou, gingando seu corpo quase no ritmo da música. Fiquei quieto também. Dois bailarinos desengonçados e mudos. Mas todos olhavam para nós. Todos! Éramos o centro da festa. Risinhos aqui, comentários acolá. Havia maldade no ar, mas eu não queria nem saber. É hoje! É hoje!

De repente ela tomou coragem e me olhou nos olhos. Em total silêncio. Congelamos no meio da dança. Respirou fundo e, de olhos fechados, veio na direção de minha boca. Beijei. Beijamos. As dúvidas começaram com o primeiro toque de nossos lábios. Beijo de língua? Como faz isso? Agora eu chupo ou assopro? Cabeça pra esquerda ou pra direita? Olhos abertos ou fechados? Posso respirar? Sem resposta alguma nos beijamos até o final da música. Ela estava assustada. Será que era a primeira vez dela também? Será que fiz alguma coisa errada? Ou muito certa? Fala alguma coisa!
– Quer namorar comigo?
Fui eu quem disse isso? Ela me olhou por um instante e depois saiu correndo, me deixando como um espantalho rejeitado pelas gralhas no meio do salão. As risadas vieram em seguida. Todo mundo riu. Até meus amigos. Como ninguém cuidou do som a única trilha sonora no ambiente eram os risos. Senti minhas bochechas queimarem. Tremia. Corri envergonhado para meu posto e coloquei qualquer música. Eu queria sumir, desaparecer da face da Terra. Não chora! Burro, burro! O que aconteceu? Não chora! Por que você disse aquilo? Não chora!
O velho então levantou de sua cadeira e parou do meu lado. O sorriso estava lá ainda, zombando de mim. Sai de perto de mim, velho idiota! Eu queria gritar, mas se falasse qualquer coisa ia cair num choro descontrolado. Não chora! Ele me olhou por um instante e pousou a mão ossuda em meu ombro. Para de sorrir! Me deixa em paz!
De repente ele não parecia mais tão velho. Atrás da cortina de seus cabelos vi compreensão em seus olhos. Compreensão e um amor quase paterno. Era um olhar familiar. Familiar até demais. Ele apertou de leve meu ombro e me disse uma única frase:
– Vai ficar tudo bem, eu garanto.
Vi através de minhas lágrimas ele indo embora. Passou por todos no salão e desapareceu pela porta.
Aquele foi o último dos bailes que fizemos. Estávamos crescendo. Era hora de descobrir novas festas. Novas pessoas. Novas experiências. A vida se abria cheia de possibilidades.
E nunca mais vimos o sorriso do velho do baile.
Me dão licença de ser previsível?
É, com você mesmo que estou falando.

Todo mundo um dia se decepciona. Mesmo quem se protege da cabeça aos pés um dia vê alguém se aproveitar de uma rachadura mínima na blindagem. Penetra sutilmente por aquele buraquinho e te encontra onde você é mais vulnerável. É neste momento que você percebe que não importa a força da armadura quando o interior ainda é mole.
Acontece. Dizem que os para os felizardos acontece mais de uma vez, mas pergunte a opinião dos felizardos antes de chegar a alguma conclusão.
A gente sabe que é irracional, incoerente e, por que não?, impossível. Mas é aí que a gente acredita mais. Que investe mais. E que comete o maior número de bobagens.
Não me arrependo de nenhuma decisão que tomei. Não me compreenda mal. Eu sabia onde estava me metendo desde que começamos. Sabia que a partir daquele momento meu padrão havia sido elevado. Só que mesmo sabendo como terminaria eu te incluí nesta trama. Fui egoísta, sim, mas qual apaixonado não o é?
O problema com a realidade é que ela é realista demais para ser invadida por fantasias. Mesmo as mais realistas. O inevitável chegou e agora preciso arrancar você de seu cantinho cativo em meu coração e colocá-la em seu novo lar em minha memória.

(Sim, o amor nos torna bregas)
Eu fico aqui. Com meu uísque, meu cigarro e meu baseado. Para beber, fumar e lembrar de você todo dia que a solidão te chamar e apenas o silêncio me responder. E para sentir aquilo que eu nunca quis sentir por você:
Sentir sua falta.
Show them to me - Rodney Carrington
Aqui a letra. E aqui a lista de todas as atrizes e filmes utilizados.

- Me conta de novo.
De novo? Eu já te disse. Eu estava lá, parado, na minha no bar. Travado. Estava apoiado pra não cair no chão. E você do meu lado. Não sei como foi parar ali.
- Eu tava ali fazia tempo. Você chegou depois.
É? Tá, eu acredito em você. Desculpe, não te notei quando cheguei. Mas notei depois. Te vi ali, parada, com cara de chateada. Como alguém pode ficar chateada num bar vestindo uma camiseta do Iron Maiden? Mas estava. Decidi não me intrometer. Mas daí apareceram aqueles dois carinhas todo empolgados e tirando fotos enquanto faziam caretas. Tiraram uma foto sua, eu acho. Mas estavam enchendo o saco. Daí você saiu de perto deles e parou do meu lado no balcão. Falei a primeira coisa que me veio na cabeça. “Maldita…”
- “Maldita inclusão digital”. Sim, foi isso que você disse. Na hora pensei: “Taí. Um cara que pensa. E é gatinho”.
Pois é. Quando vi estávamos conversando. Você pediu uma porção de pastel pra você e sua amiga mas nós dois comemos. Sua amiga só comeu um, né? Me desculpe. Você meio que insistiu e eu estava com fome. Era por isso que estava tão bêbado. Não tinha jantado. Que grosseiria a minha, né?
- Que é isso? Eu ofereci. Não tava sendo educada.
Mas pode estar sendo agora. Como vou saber? Olha eu com minha paranóia de novo. Fico assim quando bebo demais. Lembro que te assustei. Não lembro exatamente porque, mas lembro que tive que pedir desculpas.
- Foi. Um pouco antes de irmos pra pista. Você gosta mesmo de Pearl Jam?
Não o suficiente pra comprar um disco. Mas eu queria te ver dançar. Queria evitar ao máximo dar mais uma gafe por estar bêbado demais. E faria isso diminuindo o papo e apostando no clima da pista. No começo a gente meio que se sentiu estranho, né?
- É. Você estava cambaleando. Meio descabelado. Eu estranhei. Mas daí você fechou os olhos e começou a dançar. E dançou. Como se não houvesse amanhã. Como se não tivesse ninguém assistindo. Fiquei besta com aquele seu ritual. Você não estava ali para me beijar. Você estava ali. Se me beijasse seria bom, mas não era seu objetivo. Me senti meio…
Coadjuvante? Foi isso que sentiu? Me desculpe. Não foi intencional. Eu tendo a… viajar quando estou em ambientes com música alta. E também tem outra coisa. Eu sou um covarde. Jogo sempre na segurança. Não dou passos impensados. Nem bêbado.
- Não precisa mentir pra mim. Você joga, sim. Você aposta no azarão frequentemente. E raramente perde. Mas no meu caso você sentiu medo. Medo de ser rejeitado. Medo de estragar tudo com uma garota tão bonita e tão interessante. Vacilou. E esse vacilo te custou caro.
Tentei beber água. Tentei ordenar as ideias. Tentei ser eu sem medo. Eu divertido. Eu inteligente. Acabei falando demais nas horas mais inconvenientes. Você parou do meu lado e me olhou com aquela cara de “que desperdício”.
- Olha a paranóia de novo…
Não, mas é verdade. Eu vacilei. Não consegui pensar em nada. Não consegui ser natural. Não consegui ser aquele homem diferente que você se interessaria. Não entendo. Por que você ficou comigo mesmo assim?
- Não fiquei.
Não? Espera. Como assim?
- Você ainda está bêbado. E é melhor se levantar que o bar já está fechando.
Te vejo de novo?
- Não sei. Eu nem estou aqui. Como vou saber?
Espero que sim.

Ouço você chegando pelo tilintar de suas chaves. Não tenho tempo nem de vestir minhas calças e você já está aí, na porta do meu quarto. Me olha por um centésimo de segundo e já começa a recolher as roupas do chão. Não gosto que me vejam assim, mas não dou a você o prazer de minha vergonha. Apenas pego a garrafa e dou mais um gole.
– O que você está fazendo de sua vida…?
E blá, blá, blá. Sento na minha cadeira e começo a escrever em meu computador. Ela bufa enquanto joga as roupas sujas no cesto do banheiro. Você deixou a tampa do vaso levantada! Ela disse. Continuo escrevendo. Ela volta. Está do meu lado. Continua escrevendo.
– Oito da noite no sábado e você já está bêbado? E o que é isso na mesa?
Quer? Acabei de fazer. Não ficou muito bom, mas dá pro gasto. Ela reclama, mas pega e acende. Dá as baforadas na cama, às minhas costas. Talvez não queira que eu a veja capitular. Isso não está legal. Não é assim que a gente devia ser. Por que você está aqui, no meu quarto, fumando meu baseado e me vendo descabelado e de cuecas? Se este é o preço da intimidade, por favor vamos voltar a ser superficiais.
– É isso mesmo que você quer?
Agora não sei se ela estava respondendo à minha pergunta ou iniciando outro assunto. Calma. Respira. Merda de erva. Não responde. Isso. É melhor. Continua escrevendo. Ela se espreguiça na cama.
– O que é que você está escrevendo?
– Nada.
Era o que eu devia ter respondido. Mas não respondi. Nem um nada. Continuei escrevendo. De cuecas. Mais um gole. O telefone toca.
– Que tá fazendo?
Bebendo. Fumando. Escrevendo…
– Precisa de companhia?
Preciso de cerveja na geladeira.
– A caminho.
– Quem era?
Cê sabe.
– Posso ficar?
Se quiser. Mas eu preferia que não. Fala isso pra ela.
Ela se levanta. Merda. Você fez de novo. Pede desculpas. Quem ela pensa que é? Quem é você? Não importa mais. Ela está parada na porta. Ainda dá pra enxergá-la pela visão periférica. Não olha. Tchau. Ela sai.
Preciso tomar um banho.
- Mas você já fumou maconha?
- Não. Não gosto.
- Se não gosta é porque já fumou.
- Já. Uma vez. Não gostei.
- Não gostou por que?
- Ah, sei lá. A gente fica bobo. Com reflexos ruins.
- Fica com reflexos ruins porque pensa demais. Pensa em tudo. Em cada detalhe.
- E pensar demais atrapalha?
- Atrapalha.
- Então por que a gente não para um pouco de pensar e se beija logo?

Tá, eu sou um canalha.